Sobre o pálido ponto azul.

Sobre o pálido ponto azul.
"Nós podemos explicar o azul-pálido desse pequeno mundo que conhecemos muito bem. Se um cientista alienígena, recém-chegado às imediações de nosso Sistema Solar, poderia fidedignamente inferir oceanos, nuvens e uma atmosfera espessa, já não é tão certo. Netuno, por exemplo, é azul, mas por razões inteiramente diferentes. Desse ponto distante de observação, a Terra talvez não apresentasse nenhum interesse especial. Para nós, no entanto, ela é diferente. Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, "superastros", "líderes supremos", todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali - num grão de poeira suspenso num raio de sol. A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração desse ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra os habitantes mal distinguíveis de algum outro canto, em seus freqüentes conflitos, em sua ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes. Nossas atitudes, nossa pretensa importância de que temos uma posição privilegiada no Universo, tudo isso é posto em dúvida por esse ponto de luz pálida. O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em nossa obscuridade, no meio de toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos. (...)" Carl Sagan

sábado, 25 de novembro de 2017

Crônica sobre os preconceitos dos "anti-preconceitos".

Precisamos falar das mulheres e homens que se erigem contra preconceitos, desde que não sejam os seus. Desde que mudei de carreira, ou melhor, "agreguei" uma nova profissão ao meu sustento, cansei de ler críticas de feministas e do povo de esquerda à minha concepção de feminismo, liberdade e etc.. Li ofensas nos comentários do G1, do Catraca Livre, da Folha de SP e do Uol. Nunca me manifestei, porque me sentia bem demais para desperdiçar meu tempo com aquelas “pessoas”. O mal da nossa sociedade é a generalização. É julgar a Cláudia de Marchi como sendo mais uma acompanhante/prostituta e toda acompanhante/prostituta como se fosse a Cláudia de Marchi. 
A superficialidade com que, até as pessoas que se consideram “cultas e inteligentes” julgaram e julgam a minha vida é imensurável! Falo da minha vida, porque foi “ela” que virou notícia e esteve dentre as mais lidas em sites entre 2016 e o início deste ano. A questão é que, assim como as feministas "não veem" feminismo em fazer sexo e lucrar com isso, eu não vejo feminismo em várias condutas de feministas (sair à noite para procurar alguém pra transar, esperar ligação no dia seguinte, deixar o cabelo assim e o corpo "assado", porque homem gosta, transar sem vontade com o marido por medo de traição ou de frustra-lo, valer-se da liberdade para aumentar o decote, ajustar larguras e encurtar saias, manter casamento sem paixão e etc.). 
Todavia, eu nunca fui às pages da mulherada critica-las, simplesmente porque, se o feminismo, os direitos fundamentais e, enfim, a igualdade e liberdade existem, é para cada pessoa ser livre fazendo o que quer! Ontem eu conversava com um cliente sobre essas jovens afoitas por dinheiro que querem dicas minhas e sobre as mulheres que precisam de dinheiro e veem na prostituição a sua única solução na vida. Ora, se você está numa posição tal em que uma coisa (seja ela qual for) lhe parece ser a sua única opção, então essa coisa não é opção! Dívidas? Miséria? Não pague as primeiras e corra atrás de ajuda para não passar fome, mas nunca faça algo apenas por dinheiro. Seja o que for. Agir em desespero e pelo vil metal acaba vilipendiando a sua dignidade, o seu amor próprio e o seu valor. 
Eu estou aqui porque, diante de muitas coisas que vivi, optei por isso. Mas eu não "sou isso". Assim como não "sou" a doutora Cláudia. Não "sou" a professora Cláudia. Não "sou" a ex-sócia dos fulanos, a ex-esposa de sicrano, a ex-namorada ou a ex-noiva de beltrano. Não "sou" a cronista, não "sou" a escritora. Eu sou uma alma livre e intensa e só isso me define. 
A minha carreira como cortesã é atípica, não apenas pela minha idade, pela mudança abrupta de "meio profissional", mas pela forma com que me imponho, pela seletividade que tenho, pela coragem em dizer para um homem que não gostei do seu beijo e não prosseguirei com o encontro, porque não faço nada sem tesão (nunca fiz e nunca farei!), enfim, eu quebro qualquer paradigma dentro do fórum, na Academia e na sociedade patriarcal e isso, infelizmente, incomoda até as mulheres que deveriam pensar e dizer: "Ela é livre e vive como deseja", ao invés de, sem saber nada sobre mim, dizer coisas como "nem é gente quem acha que sexo por dinheiro é “empoderador". Eu sou gente e não acho que o amor romântico seja empoderador, não acho que sexo casual seja empoderador, não acho que procurar uma “metade da laranja” seja empoderador e, de mais a mais, profissionalizar algo de que gosto muito foi uma manifestação do meu empoderamento, não a causa dele. 
Eu já fui muito machista, recalcada, conservadora, medíocre, careta e tola até chegar à maturidade atual, logo, se o meu empoderamento avilta ou irrita o seu "espírito" esquerdista, feminista ou conservador e sexista, você precisa rever seus conceitos, procurar um terapeuta, olhar o seu próprio umbigo, porque há algo muito errado com você! Com você, não comigo, que nada sei ou pretendo saber a seu respeito. Que não lhe critico ou ofendo, mesmo que meu cérebro exerça, ainda que rara e superficialmente, o direito que possui de lhe achar frívola, afinal, eu não sou hipócrita em negar que eventualmente eu posso julgar mal o que ou quem, à primeira (e seguidamente enganosa) vista, eu acho estúpido, mas eu não procuro discussões dentro ou fora da internet, porque o meu julgamento e pensamento, são apenas o meu julgamento e o meu pensamento, ou seja: são tão ínfimos quanto um grão de areia na "ordem" do seu dia e da sua vida que, deduzo, deve ser feliz, do contrário, você a mudaria, como eu mudei a minha e, logo mais ali adiante, mudarei novamente, porque se tem algo que eu amo neste mundo, este algo se chama "mudar"! Se eu serei julgada pelo que fiz no último ano e farei até EU resolver mudar? Deduzo que sim. Mas eu nasci mulher, não sou a Geni e nunca tive as predileções dela, mas sou mulher nesta sociedade que adora nos jogar pedras. 
Eu me acostumei a ser julgada: "Filha única? Mimada!". “Filha de caminhoneiro em colégio particular? Ridícula!”. "Musculosa? Cavalona!". "Magra? Saco de ossos.". "Não gosta da própria aparência? Problemática!". "Se ama e se gosta? Convencida, arrogante!". "Se cala? Servil!". "Exige respeito? Grossa!". "Namorado mais velho? Interesseira!". "Namorado rico? Vadia". “Transou no segundo ou primeiro encontro? Puta.” “Não transou depois de meses? Tá se ‘fazendo’.” "Brava? Mal amada!". "Extrovertida? Atirada!". "Discreta? Antipática". "Abstemia? Chata!". "Alcoolizada? Bebum!". "Quer casar e ter filhos? Iludida!". "Não quer parir? Pessoa má, pois filho é uma 'bença'". "Tirou nota boa, foi orientanda do fulano? Transou com o professor!". "Bonita e trabalhando com o 'Doutor' Fulano? Tá 'dando' pra ele!". "Bonita e inteligente? Deve ser frígida, azeda e ter TPM!". "Gosta muito de sexo? Ninfomaníaca!". "Se internou num hospital psiquiátrico por estresse e cansaço com a vida? Louca!". "Perdoou o fulano? Reatou? Otária, não se valoriza!". “Se divorciou? Não sabe ceder, lutar pela relação!”. “Sai em balada? Tá caçando macho!”. “Não gosta de sair? Antissocial!” e a lista segue e nunca terá fim! Ou seja: na arte de ser julgada equivocadamente eu sou mestra, todavia se a opinião alheia me interessasse eu não seria eu! Mas, felizmente eu sou eu e estou aqui para dizer que a melhor “posição” que você pode ousar, no sexo e fora dele, é aquela que lhe dá prazer e isso é muito pessoal, assim como opinião: é sua, guarde para si e reveja sempre os seus conceitos, porque preconceito, inteligência e língua afiada nunca andaram e nunca andarão juntos. Eu tento me desfazer dos meus com autocrítica, diariamente. Tente fazer o mesmo, a humanidade e eu agradecemos.
Cláudia de Marchi
Brasília/DF, 23 de novembro de 2017.

5 comentários:

  1. Oi Claudia! Achei bem interessante teu texto, na verdade eu também acreditava que as profissionais do sexo viviam subjugadas e mais oprimidas que as mulheres de carreiras convencionais, mas acabei mudando um pouco o ponto de vista depois de ver algumas entrevistas com uma prostituta gaúcha, bem atuante no que diz respeito à necessidade de regulamentação da profissão, vi alguns conteúdos dela na página Quebrando o Tabu. Realmente, existem as mulheres que sofrem nessa função, mas provavelmente por terem ingressado por desespero, e não por escolha. De todo modo, como mulher, quando leio teus textos narrando teu cotidiano, sempre me pergunto como você consegue se proteger da brutalidade dos homens. Numa sociedade que a violência contra a mulher parece quase normal, como se proteger de estupradores e/ou homens que não respeitem teus limites, que não te violem de alguma forma? Acho que a ótica das feministas de fora desse meio do sexo (que me incluo), é em razão da percepção da completa vulnerabilidade que a profissional se submete frente a um homem que, sabemos, pode enxergá-la como objeto. Apesar desses medos, por me colocar no teu lugar, admiro tua coragem de ser quem é. Muito sucesso e amor na tua vida. Beijão!

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    1. Boa noite Raisa!

      Acho que as tuas perguntas podem ser respondidas acompanhando o meu cotidiano aqui no diário, lendo os meus tutoriais, minhas crônicas, meu livro ou me seguindo nas redes sociais, mas te respondo, como dizem na minha terra, "com muito gosto”.

      Vejamos: eu sou advogada há 12 anos. Professora universitária. Estou "sendo" acompanhante, porque gosto de sexo, isso o próprio texto acima responde. Escolho pela aparência e abordagem os homens que atendo e eu vejo na forma de falar se o cidadão está me contatando por eu ser mais um rostinho e corpo num site, ou porque gostou dos meus diferenciais, leu sobre mim e etc.: sou narcisista, só agendo com homens que "repararam" nos meus atributos além da aparência e que querem “a Cláudia” e não meramente sexo e alívio de tensões como os homens broxantes dizem (falou em “preciso relaxar” eu bloqueio na hora).

      Eu não me "vendo" como produto em lugar algum: não faço ensaio demasiado expositivo ("ginecológico", como eu chamo), não tenho perfil no Twitter carregado de pornografia, vídeos escrotos e coisas do tipo que costumam agradar aos machistas e abusadores sexualmente egoístas. Eu sou boa em traçar perfis e defini o perfil de cliente que eu queria ter antes mesmo de chegar em Brasília: homens seletivos e que, sobretudo, não são "consumidores" habituais de sexo pago. Como dito, gosto de ser especial e noto isso num piscar de olhos.
      Outro dia bloqueei um cliente após nosso segundo encontro em um ano, porque ele me contou sobre uma mulher que ele paga lá no Estado dele! Consumidor habitual de sexo pago? Anojei, bloqueei e nunca mais quero ver!

      Não faço absolutamente nada só por dinheiro, tenho um site onde os homens de inteligência razoável se informam (www.claudiademarchi.com.br). Fiquei famosa em menos de 2 meses de profissão: de Globo.com à tabloides internacionais (vide o “na mídia” no meu site). Minha mãe mora comigo num prédio com câmeras e segurança 24 horas no plano piloto de Brasília. Eu não vou a festas e nem eventos, despedida de solteiro, festa com homens e outras mulheres, passeios em lancha e asneiras afins que as “pseudo-acompanhantes de luxo” adoram aqui em Brasília. Não bebo em encontros, somente água, a exceção de jantares em locais demasiado elegantes. Eu não vou a motéis encontrar cliente e, quando fui, foi com cliente fidelizado (o que vem no mínimo duas vezes por mês).

      Em um ano só aumentei minha lista de exigências e de coisas que eu não faço, no início eu era mais maleável, hoje não sou e nem pretendo ser. Só vou ao encontro de homens em hotéis aqui no plano piloto após eu passar pela recepção e câmeras, logo, eu te pergunto: que homem seria suficientemente idiota para me violentar?

      Quanto a respeitar os meus limites, a mesma coisa, todos respeitam, mais: me agradam ao máximo! Nem com meus namorados eu fui tão cortejada, cuidada e zelada no quesito prazer sexual. Teve um cidadão certa vez que não me chupou e segurou a minha cabeça na hora em que eu estava chupando ele: parei na hora e disse que estava detestando o encontro, disse-lhe que não precisava pagar, mas ele pagou. Estava num hotel da cidade e eu narrei aqui o encontro, sai leve e feliz de lá, não por ter recebido, mas por ter deixado o moço ruim de cama lá, literalmente, na mão. Não existe um código de ética deste trabalho e se um dia existir e for feito por uma mulher minimamente valorosa constará que dar prosseguimento a encontro sem ter tesão é errado. Homem que vale a pena ama ver a mulher gozando, logo, até para ele seria um alivio eu não fingir.

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    2. Aliás, eu não finjo nada, menos ainda orgasmo! Se já fingi? Lá nos meus “inte” quando era uma jovem insegura. Hoje? Jamé! Fode mal, chupa mal e toca mal? Vai ficar sabendo. Então, tu achas que é “qualquer homem” meramente interessado em sexo pago que vai querer marcar um encontro comigo?

      Se eu não gosto, não faço! Gosto de reciprocidade e adoro uma pegada animalesca, mas, para chegar até ela é preciso no mínimo meia hora de oral, beijos e carícias. Eu amo sexo! Amo tudo que envolve sexo e o que eu não curto, não faço: atender casais, ir a casas de swing, gravar vídeos, atender com outra mulher e coisas afins!

      Eu queria te dizer que eu confio nos homens, mas não, eu confio no meu "dedo" e, apesar de feminista, eu penso como um homem machista para me proteger. Fui machista por décadas e pensar como um é uma forma de autoproteção. Nós, feministas, amamos dizer que "mulher não precisa se dar ao respeito, pois ele é nosso por direito", certo?! Estamos equivocadas. No mundo do "dever ser", talvez seja assim, no universo do "ser", não é. Devemos impor respeito, devemos deixar o silêncio e a "boa educação" de lado, devemos ser imperdoáveis com macho tosco (vide meus textos com prints) e devemos deixar claro que somos especiais para que sejamos tratadas como tais!

      O "diabo" sabe para quem aparece e, sobretudo, o "diabo" (neste contexto, seriam os homens abusivos) escolhe as presas e eu, certamente, não pareço-lhes atraente, eu assusto pelo meu histórico e postura.

      Ou seja, minha cara: maturidade, bom senso e auto-preservação. Noção da realidade. Esperteza e etc.. Tudo o que envolve o empoderamento de uma mulher de 34 anos que se tornou cortesã porque quis, não por necessidade: eu.

      Motivo pelo qual não dou atenção à maioria das mulheres que me procura pedindo conselhos: 9 em 10 só quer dinheiro e é muito jovem. Sobre as que "precisam" de dinheiro, falei no texto. Necessidade não combina com boas resoluções. Eu cheguei aqui com dinheiro na conta, FGTS e honorários. Cheguei determinada a nunca atender um homem só pelo dinheiro. Cheguei determinada a dispensar homem que não me agrada. Se tive encontros "razoáveis"? Claro, mas foi bloqueio a seguir e eles nunca envolveram desrespeito, a exceção do cara que citei aqui. (Os encontros ruins aos quais me refiro envolveram homem ruim de oral, de tato, mal dotado, mas todos esforçados em me agradar, enfim...).

      Não conheço a conterrânea da qual falaste, para ser sincera minha melhor amiga é minha mãe e meus gatos. Ah, as 3 tias maternas, inclusive! Me afastei do magistério para não precisar conviver com "colegas" e pretendo continuar assim até voltar à Academia, mas fico feliz por saber que ela existe. Eu, há um ano, queria ser “ativista” e etc., mas, depois de um tempo comecei a ver como as mulheres deste meio se permitem rebaixar, se colocam num lugar marginal de vulgaridade, fazem questão de ostentar vagina e corpo na internet, mas tem vergonha do que fazem... Algumas criticaram minha atitude, minha mãe, logo, eu não quero representar ninguém. Neste mundo eu sou só com o meu hedonismo até eu querer mudar de novo!

      Enfim, espero ter lhe respondido!

      Beijos!

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